O PEI se elabora em cinco passos: fazer o estudo de caso do estudante, transformar o resultado em objetivos verificáveis, definir os apoios e recursos necessários para cada objetivo, estabelecer prazos e responsáveis, e marcar a data de revisão. Desde o Decreto nº 12.686/2025, o plano individualizado deixou de ser boa prática e passou a ser documento obrigatório — e o decreto exige que ele derive do estudo de caso, não de um modelo pronto preenchido de memória.
Antes do plano, o estudo de caso
O erro mais comum na elaboração do PEI é começar pelo formulário. O professor abre o modelo da rede, olha para os campos e tenta lembrar do estudante. O resultado é previsível: objetivos amplos, apoios genéricos e um documento que serviria para metade da turma.
O art. 11 do Decreto nº 12.686/2025 inverte essa ordem e define o estudo de caso como etapa inicial necessária, com quatro etapas: identificar as demandas individuais e as barreiras; analisar as barreiras e o contexto escolar; identificar potencialidades e demandas de apoio; e definir estratégias e recursos de acessibilidade. Só então o §2º manda que o resultado fundamente o PAEE e o PEI.
Na prática, o estudo de caso responde a três perguntas sobre cada habilidade relevante: o que o estudante realiza sozinho, o que realiza com apoio, e o que ainda não realiza. É uma descrição, não um julgamento — e é ela que separa um plano útil de um plano decorativo.
Passo 1 — Descreva o ponto de partida sem adjetivos
A primeira seção do PEI registra onde o estudante está. O teste é simples: se outro professor lesse a descrição sem conhecer o estudante, conseguiria reconhecê-lo?
Frases como "apresenta dificuldade de atenção" ou "tem bom relacionamento" não passam nesse teste, porque não descrevem comportamento observável. Trocar o adjetivo pela situação resolve.
- Em vez de: "dificuldade de atenção"
- Escreva: "mantém-se em atividade dirigida por cerca de 8 minutos; com apoio visual da sequência de passos, chega a 15 minutos".
- Em vez de: "não acompanha o conteúdo"
- Escreva: "realiza adição com apoio de material concreto até 20; sem material concreto, resolve até 10".
- Em vez de: "é agitado"
- Escreva: "levanta-se da carteira em média 6 vezes por aula, com maior frequência nas atividades de escrita longa".
Passo 2 — Escreva objetivos que dá para verificar
Um objetivo do PEI precisa responder a quatro perguntas: o que o estudante fará, em que situação, com que apoio e até quando. Se faltar qualquer uma delas, ninguém conseguirá dizer no fim do período se houve avanço — e a revisão do plano vira conversa de impressão.
A referência conceitual aqui é a distância entre o que o estudante já faz sozinho e o que consegue fazer com ajuda. O objetivo mora nesse intervalo: abaixo dele, é repetição do que já está consolidado; acima dele, é frustração programada.
- O que fará
- Um verbo observável: identificar, escrever, solicitar, organizar, permanecer. "Compreender" e "desenvolver" não são observáveis.
- Em que situação
- Onde e quando: na roda de conversa, na atividade escrita individual, no intervalo, na aula de Educação Física.
- Com que apoio
- Apoio físico, verbal, visual, material adaptado, mediação de colega — e a intenção de reduzi-lo ao longo do tempo.
- Até quando
- Um prazo real, em geral bimestral ou trimestral, compatível com o calendário da escola.
Passo 3 — Defina os apoios com nome e responsável
Apoio sem responsável não acontece. Cada recurso previsto no plano precisa dizer quem providencia, quem utiliza e onde fica guardado — senão o material adaptado vira uma linha no documento e nunca chega à mesa do estudante.
Vale distinguir três categorias, porque elas têm fluxos diferentes na escola: recursos de acessibilidade (prancha de comunicação, material ampliado, texto em Braille, plano inclinado), estratégias pedagógicas (redução de comandos, tempo estendido, avaliação oral) e apoio humano (profissional de apoio escolar, mediação do professor do AEE).
Sobre o apoio humano, uma informação que ainda gera conflito na escola: o art. 14, §2º do Decreto nº 12.686/2025 determina que a oferta do profissional de apoio escolar seja avaliada pelo estudo de caso e independa de diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde.
Passo 4 — Coloque quem está na sala comum dentro do plano
Um PEI escrito só pelo professor do AEE, sem o professor regente, tem chance alta de não ser aplicado — porque quem passa quatro horas por dia com o estudante não participou das decisões e frequentemente nem leu o documento.
O decreto reforça isso ao definir, no art. 12, §2º, que o plano orienta o trabalho na sala de aula comum, o trabalho do AEE e as atividades colaborativas da escola. O plano não é do AEE: é do estudante, e organiza o trabalho de todo mundo.
A família também entra: o art. 11, §3º determina que o envolvimento do estudante e dos familiares seja garantido ao longo de todo o estudo de caso — tanto para contribuir com o histórico de estratégias já tentadas quanto para acompanhar a implementação.
Passo 5 — Marque a revisão antes de arquivar
O decreto exige "atualização contínua". Na prática, isso significa que a data da próxima revisão precisa estar escrita no plano antes de ele ser guardado — do contrário a revisão acontece em dezembro, quando já não adianta.
A revisão tem três saídas possíveis, e todas são legítimas: o objetivo foi alcançado e o próximo passo é definido; o objetivo não foi alcançado e a estratégia muda; ou o objetivo se mostrou inadequado e é substituído. O que não pode acontecer é o plano ser recopiado igual para o período seguinte.
Registrar a evolução também protege a escola. Quando chega um questionamento da família, uma supervisão da rede ou um pedido do Ministério Público, o que a escola tem para mostrar é o registro — e trabalho feito sem registro, do ponto de vista de quem fiscaliza, não aconteceu.
O que costuma travar na prática
Três problemas aparecem em quase toda rede, e nenhum deles se resolve trocando o modelo do formulário.
- Tempo
- O professor não tem hora protegida para escrever o plano. Redes que resolvem isso colocam a elaboração do PEI dentro do horário de módulo ou de planejamento, e não como tarefa extra.
- Redigitação
- A mesma informação é escrita na avaliação, no plano, no relatório e na ata. Quando o plano é gerado a partir da avaliação já preenchida, esse retrabalho desaparece — é o que o sistema ADIPE faz.
- Falta de critério comum
- Sem formação, cada professor interpreta os campos de um jeito, e a rede acumula planos incomparáveis entre escolas. É problema de formação, não de documento.
Normas citadas neste guia
Cada afirmação sobre legislação neste texto foi conferida no documento oficial.